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sábado, 5 de setembro de 2009

*AIÚ: A Herança Africana Dos Jogos De Mancala No Brasil* Meu texto Publicado no Site África Em Nós e Revista África e Africanidades*

*Por Denise Guerra*

Em relação aos brinquedos africanos no Brasil é difícil detectá-los pelo desconhecimento dos brinquedos de nossos antepassados africanos anteriores ao século XIX, além de ser complicado perceber cada elemento étnico num determinado brinquedo, pois, segundo Kishimoto (1993) os africanos escravizados misturavam-se ao cotidiano do período colonial brasileiro. Sobre os jogos de Mancala há várias versões para suas origens, mas, a maioria delas citam seu surgimento na África especialmente na Etiópia e no Egito por volta de 2000 a.c. sendo jogado pelos faraós e encerrados em suas tumbas quando estes morriam. Como dizem os Griots peço emprestados suas orelhas e seus olhos para que conheçam a história milenar das Mancalas ou do nosso AIÚ.

Povos distintos do continente africano transmitiram através da tradição oral as brincadeiras e jogos em geral de geração à geração. Algumas brincadeiras e jogos mantiveram-se preservados em sua estrutura inicial, e outros foram sendo modificados pela aculturação (CASCUDO, 1958). A difusão da Mancala no continente africano é mais notada do que em qualquer outro continente. A Mancala tem mais de 200 versões e consequentemente possui nomes diferenciados nos países em que é jogada: AIÚ no Brasil, AYÓ na Nigéria e a versão brasileira teria vindo de lá, OURI em Cabo Verde, AWARI no Suriname, OWARE em Gana, ADI no Daomé, ANDOT no Sudão, KALAH na Argélia, WARI na Gâmbia e no Senegal.

Conforme Macedo (2000) há duas vertentes básicas dos jogos de Mancala, uma asiática mais simples jogada por mulheres e crianças e uma mais complexa africana jogada pelos homens que parece ser mais complicada que o jogo de xadrez. Segundo os Árabes a palavra Mancala significa ‘mover’, e as Mancalas são jogos de semeadura e colheita, notadamente relacionada às atividades de plantio. Diversas lendas e mitos africanos afirmam o valor simbólico do jogo como estas que vou contar agora retirados do site “Jogos Antigos”
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“Algumas tribos jogam a Mancala tão somente durante o dia, deixando o tabuleiro para fora de casa a noite, para que os deuses também possam jogar e, assim, com sua intervenção, favoreçam as colheitas. Outras tribos não jogam Mancala à noite, pois acreditam que nesta hora, espíritos de outro mundo virão jogar também, levando então a alma dos jogadores embora.”
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“No Suriname, o Awari, uma das variantes do Mancala, é jogado na véspera de um enterro, para distrair o morto. Depois do enterro, o tabuleiro é jogado fora.”
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“É jogado indiscriminadamente por homens, mulheres, crianças, ricos e pobres, mas, nunca a dinheiro, já que seria uma de suas regras éticas (não escritas) que a Mancala é jogada para se saber quem é o melhor e não para se obter ganhos financeiros.”
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“Uma lenda interessante é a do Oware uma das versões de Mancala de Gana. O nome significa "ele casa". A lenda diz que um casal de jovens iniciou uma partida do jogo e, por estar esta demorando, resolveram casar-se a fim de poder terminar a partida sem interrupções.”
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O jogo do AIÚ era jogado no Brasil pelos africanos chamados de carregadores do pesado nas horas vagas quando viviam nos portos do Rio de Janeiro e de Salvador (Querino, apud RAMOS, 2007). O AIÚ é um jogo de tabuleiro que varia de um lugar para o outro podendo ter 12, 16, 24, 30 ou mais buracos para as sementes. Geralmente é jogado por dois jogadores que semeiam e colhem as sementes dispostas, mediante uma das inúmeras regras existentes. O tabuleiro mais usado é o de 12 buracos com um oásis ou Mancala (depósito das pedrinhas que se ganha jogando) na face lateral do tabuleiro. O objetivo do jogo é capturar o maior número de pedras. Uma regra bem simples é a seguinte:
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*O jogo começa em geral com quatro sementinhas em cada buraco. Sua jogada consiste em escolher um buraco, retirar suas pedras e distribuí-las pelos outros buracos, uma por buraco, no sentido anti-horário (em algumas versões do jogo, no sentido horário). Quando você passar por sua Mancala deve deixar uma pedra nela como se fosse um buraco normal, mas, a Mancala do adversário deve ser pulada.
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*Se a última pedra distribuída cair na sua própria Mancala, você joga de novo. E se ela cair em um dos seus buracos e ele estiver vazio, você leva para sua Mancala não apenas essa pedra, mas todas as pedras que estiverem no buraco adversário exatamente oposto. A propósito, sua Mancala ou Oásis fica do seu lado direito.
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*Quando os seis buracos de um jogador estão vazios, o adversário coloca todas as pedras que estiverem na sua metade do tabuleiro na Mancala do outro. Somam-se então as pedras e quem tiver mais vence. O jogo acaba quando há poucas sementinhas no tabuleiro ou quando há uma em cada lado, então, contam-se as pedras que cada um ganhou e quem tiver mais é o vencedor.
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Encontra-se o jogo de Mancala à venda em alguns sites, mas, há uma forma simples e acessível de fazermos o jogo, por exemplo, com estudantes do ensino fundamental. De uma simples caixinha de ovos de papelão, retira-se a tampa cortando-a para colocar na lateral fazendo-se o lugar da Mancala ou Oásis, pode ser colada ou grampeada. Sugere-se a opção de pintar com tinta guache para ficar original e usar pedrinhas, caroços de feijão, de milho, contas, miçangas, sementes de pau-brasil, búzios e etc. para servir de sementes.
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O site da Wikipédia afirma que recentemente a Mancala foi considerada patrimônio cultural afro-descendente do Brasil, não consegui confirmar o fato, mas, deixo a informação para pesquisas no IPHAN. Atualmente a Mancala tem sido muito praticada nas escolas de Portugal havendo inclusive campeonatos de Ouri, como é conhecido este jogo na terra lusitana. Vários países africanos ainda jogam a Mancala e suas variantes. No Brasil estamos buscando esta prática inclusive por ser mais um instrumento pedagógico de raciocínio lógico, reflexivo e significativo patrimônio da cultura afro-brasileira.
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Espero que o resgate deste jogo milenar seja mais um passo na busca da nossa história e valorização do conhecimento transmitido pelos nossos antepassados africanos. Finalizando deixo um provérbio Fulani concluindo meu objetivo neste artigo: “Quem conhece o ontem e o hoje Conhecerá o amanhã, porque o fio do tecelão é o futuro, o pano tecido é o presente, o pano tecido e dobrado é o passado.”
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REFERÊNCIAS
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ªedição. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora Universo, 1988.
________________________. Supertições e Costumes: Pesquisas e Notas de Etnografia Brasileira. Editora Antunes & Cia. Rio de Janeiro, 1958.
FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
KISHIMOTO, Tizuko. Jogos Infantis: o Jogo, a Criança e a Educação. Petrópolis, RJ: Vozes,1993.
LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro Edições, 2004.
MACEDO E OUTROS, Lino de. Aprender com os Jogos e Situação Problema. Rio de Janeiro: Artmed, 2000.
RAMOS, Athur. O Folclore Negro do Brasil. 3ª Edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
SILVA, Elísio Santos. O Ouri: Um jogo Caboverdiano e a sua Prática em Portugal. Lisboa: Associação dos Professores de Matemática, 1984.


*Foto1:http://www.aerobiologicalengeneering.com
*Foto2:http://www.vilaesperança.orgpublic.200905.oficina-de-mancala
*ESTE TEXTO FOI PUBLICADO EM:
*http://www.africaemnos.com.br
*http://www.africaeafricanidades.com
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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.