♫AMIGOS DO AFRO CORPOREIDADE♫

quinta-feira, 25 de março de 2010

♫ACALANTOS AFRO-BRASILEIROS♫

*Por Denise Guerra


“Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos(...)
Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças.”
(Canção Amiga: Carlos Drumond de Andrade & Milton Nascimento)



Com origem na tradição oral anônima, atravessando o tempo dos cantos ancestrais, e com objetivo de embalar o sono infantil através da maternagem, os Acalantos surgiram no mundo todo, nas mais diversas línguas. Particularmente no adocicado das repetições onomatopéicas eles cumprem seus objetivos de entorpecer a criança até o sono e no contato corporal com a “mãe suficientemente boa” (termo usado por Winnicott-1975, significando a figura que faz a maternagem) dar o continente afetivo que ela precisa para se constituir como pessoa.

Segundo Mário de Andrade(1987) os elementos formais da música, o Som e o Ritmo, são tão velhos como o homem, por estarem presentes nele mesmo, nos movimentos do coração, no simples ato de respirar, no caminhar, nas mãos que percutem e na voz que produz o som; e Millecco Filho(2001) complementa afirmando que “Quando o homem se percebe como um instrumento, como um corpo sonoro, e descobre que estes sons podem ser organizados, nasce a música.” Desta forma, o homem começou a organizar estes elementos sonoros expressando-se musicalmente e utilizando sua arte para diversos benefícios.

O canto acompanha o homem em todas as culturas e nas mais diversas situações: lúdicas, afetuosas, fúnebres, sagradas, profanas. Aos quatro meses de gestação o feto humano já desenvolveu o sentido da audição; assim, o pequeno ser em construção recebe os contatos do mundo extra-uterino e a audição lhe permite diversas sensações como o prazer ou a angústia. O feto ouve principalmente os batimentos cardíacos e a circulação sanguínea tanto sua quanto da mãe em questão, além de outros sons internos e externos.

Um dos sons mais significativos para a criança é o som da voz da mãe que ela reconhece sem dúvida nenhuma logo que nasce. A voz da mãe com sua candura e afeto é que vai dar à criança o holding necessário para que ela se adapte a vida fora do útero materno. Neste sentido, os Acalantos se transformam em redomas acolhedoras à nossa pré-maturidade cultural.


(Seduzir – Djavan)
“Cantar é mover o dom
Do fundo de uma paixão
Seduzir as pedras
Catedrais, Coração(...)


Nas fazendas dos senhores de engenho do Brasil colonial, era comum a prática das famílias brancas entregarem os filhos para serem amamentados e cuidados pelas amas de leite negras. Este ato se refletiu tanto na criação dos meninos(as) do engenho como nos seus jogos e cantigas (kishimoto, 1995). Há relatos em Freyre(2000) de como este hábito acabou por misturar os costumes portugueses e indígenas com as tradições africanas. Desta forma, os Acalantos típicos portugueses ganharam personagens do folclore africano, além de ser introduzidos na cultura brasileira o folclore africano propriamente dito.

Os personagens de influência africana para as cantigas de ninar afro-brasileiras ao invés da Coca ou do Bicho Papão passam a ser: Negros surrões, Negros velhos, Papa-figo(que come o fígado das crianças), Boi da cara preta, Saci-pererê, Zumbi, Bicho Tutu, Tutu Marambá. Vejamos alguns exemplos:


(Bicho Tutu – Domínio Público)
“Bicho Tutu
Sai de cima do telhado
Deixa o menino
Dormir sossegado”


(Tutu Marambá– Domínio Público)
“Tutu Marambá
Não venha mais cá
Que a mãe do menino
Te manda matar”


(Murucututu– Domínio Público)
“Murucututu
Da beira do telhado
Pega este menino
Que ainda está acordado”


Conforme Lopes(2004) Tutu é o mesmo que “Bicho-Papão da tradição afro brasileira; maioral, manda-chuva; indivíduo valente, brigão. Do quimbundo tutu, kitutu, “bicho”, “bicho-papão”. Variantes: Tutu-babá, tutu-cambê, tutu-gombê, tutu-marambaia, tutu-moringa, tutu-quiba, tutu-zambeta, tutu-zembê, tutu-zerê.” Estas três cantigas apresentam variações do Bicho Tutu que por sua vez é o próprio Bicho-papão muitas vezes personificado pelo Velho do saco, Papa-figo, Negro-velho, Negro-surrão; talvez por alguma associação a imagem do Preto-velho, ligado a “feitiçaria”, aquele que possivelmente faz rituais macabros com crianças. Estigmas comuns até os dias de hoje. Parece contraditório vermos que a maioria dos acalantos para acalmar as crianças costuma ter temas tão ameaçadores, no entanto, uma justificativa para este fato é que é a tal ameaça que potencializaria a proteção dada pela figura materna.

Outros temas comuns nos acalantos afro-brasileiros são as referências às mulheres negras escravizadas e seus afazeres domésticos. Observem estes dois exemplos abaixo:


(Mucama Bonita– Domínio Público)
“Mucama Bonita
Vinda da Bahia
Toma este menino
E lava na bacia

Mucama Mulata
Vinda da do Rio
Toma este menino
Proteja-o do frio”


(Acalanto – Domínio Público)
“Menino vá dormir
Eu tenho o que fazer
Vou lavar, vou cozinhar,
Vou sentar para coser

Menino durma cedo
Dormindo vais crescer
Vais ser forte e corajoso
Pra poder se defender”


Mais uma vez seguimos os conceitos de Lopes(2004) para entender o significado de Mucama “Escrava doméstica. Em espanhol, o vocábulo tem o moderno sentido de “criada”, “arrumadeira de hotel”. Do quimbundo “Mukama” “Concubina”, “escrava amante do senhor”. Trata-se nestas duas cantigas de uma personagem materna negra que além de escravizada e serviçal doméstica, provavelmente poderia servir sexualmente ao senhor da casa grande e ainda cuidar do seu filho. O peso nas costas da mulher negra escravizada talvez fosse maior do que o do homem negro escravizado, pois, a exploração não era só para os trabalhos braçais mas, muitas vezes sexualmente, fazendo-as forçadamente pôr no mundo seus filhos bastardos, herdeiros do algoz. Este corpo-ser feminino mais do que invadido, desgastado e ultrajado emocionalmente ainda encontrava afeto materno para cantar acalantos e embalar as crianças que chegavam aos seus cuidados.

Por derradeiro, lembro um Acalanto muito famoso no Brasil devido a nossa tradição rural:


(Boi da Cara Preta – Domínio Público)
“Boi, boi, boi
Boi da Cara Preta
Pega este menino
Que tem medo de careta”



Encontramos na literatura oral de todo o país os autos do boi com variados nomes e versões, falando do bicho que é brabo, de sua força e de suas façanhas escapando sempre da morte ou renascendo magicamente depois de morto. No auto do Boi-Bumbá os personagens centrais são Pai Francisco e Mãe Catirina, ambos negros cativos. Pai Francisco mata o melhor boi do seu senhor para tirar-lhe a língua para Mãe Catirina comer, pois, ela que estava grávida teve este desejo. Em seguida o senhor manda matar o Pai Francisco e Mãe Catirina pede então ao feiticeiro para fazer renascer o Boi-Bumbá para livrar o Pai Francisco da morte. O bicho renasce e finalmente ocorre a grande festa. Observe o poder de Mãe Catirina com relação a vida onde seus desejos maternos são todos possíveis: matar o melhor boi do senhor para comer-lhe a língua, impedir que Pai Francisco seja morto, pedir pela magia do feiticeiro o renascimento do boi e satisfazer seus desejos de grávida. Por maior que seja o poder do boi o da mãe que embala parece bem maior.

O “Leite Sonoro” das mucamas negras nutriu, exorcizou medos, abrandou e criou este sujeito brejeiro, cheio de gingado, festivo, receptivo, afro-mestiço brasileiro. No mínimo o que o brasileiro deve a estes bens em forma de acalantos e suas benfeitoras negras é prestar-lhes homenagens, quem sabe “bater cabeça” para a grande mãe África que o embalou! Parafraseando a Profª Drª Conceição Evaristo: “Que estas cantigas não tenham servido só para embalar o sono dos senhores das casas-grandes, mas, para acordá-los dos seus sonos injustos!”.



(Alguém Cantando – Caetano Veloso)


“Alguém cantando longe daqui

Alguém cantando longe, longe

Alguém cantando muito

Alguém cantando bem

Alguém cantando é bom de se ouvir

Alguém cantando alguma canção

A voz de alguém nessa imensidão

A voz de alguém que canta

A voz de um certo alguém

Que canta como que pra ninguém

A voz de alguém quando vem do coração

De quem mantém toda a pureza

Da natureza

Onde não há pecado nem perdão”

(Alguém Cantando – Caetano Veloso)

*Publicado inicialmente na Revista http://www.africaeafricanidades.com/ - Fevereiro/2010.


REFERÊNCIAS
ANDRADE, Mário. Pequena História da Música. 9ªed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda,1987.
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ªed. Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda,1988.
FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogos Tradicionais Infantis: O jogo, a criança e a educação. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro Edições, 2004.
MILLECCO FILHO, Luís Antônio e outros.É Preciso Cantar: Musicoterapia, Cantos e Canções. Rio de Janeiro: Enelivros Editora e Livraria Ltda, 2001.
WINNICOTT. D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro, Imago Editora, 1975.
http://images.google.com.br

4 comentários:

lucidreira disse...

Como seria bom que retrocederce-mos no tempo em! Iria lembrar de tamtas das canções de ninar, e camtar para nossos filhos, um com 33, outra com 29 e o caçula com 12, é que pra nós eles não crece, sempre são crianças.
Beleza.

Denise Guerra disse...

Oi Lú, é muito bom cantar principalmente pras crianças que não se importam como fazemos, mas, se fazemos! Bjs!

Guará Matos disse...

Dorme nenem do meu coração.....
Beijos.

Denise Guerra disse...

Oi Guará, os bebês precisam muito disso! Bjs!

♫ESCOLA DE MÚSICA PENTAGRAMA♫ Direção Mapinha * Músico-Professor♫

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*"Capoeira é de Todos e de Deus. Mundo e gentes têm mandinga, Corpo tem Poesia, Capoeira tem Axé"*

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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.