♫AMIGOS DO AFRO CORPOREIDADE♫

domingo, 18 de abril de 2010

*SACI PERERÊ : O Primeiro Afro-Indígena Brasileiro - por Nei Lopes*



OIOBOMÉ: NASCE UMA NAÇÃO (Nei Lopes uniu as cidades históricas africanas de Oió e Bomé para criar esta cidade imaginária na Amazônia brasileira onde tudo dá certo e o personagem principal é o nosso primeiro afro-indígena Saci Pererê. Confira!)


"O general governador gosta de se embrenhar pela floresta, para senti-la e conhecê-la. E numa dessas incursões, quando tenta se desvencilhar de um espinhoso cipoal, após um estranho redemoinho que repentinamente se forma à sua frente, ele vê o negrinho. "É um anão. De pouco mais de 3 pés de altura, tem apenas uma perna e, em seu corpo, não se vê nenhum distintivo sexual, apesar de estar completamente nu. Mas o guerreiro percebe que é um homem, talvez um menino, pois usa um barrete vermelho. Ou é um velho, pelo cachimbo que fuma?!


"Seus olhos, que parecem duas brasas, olham fixa e severamente os de Dos Santos, como a cobrar alguma coisa prometida.


"– Cadê meu fumo de rolo?. – A pergunta, numa voz fanhosa e esganiçada, sai como um silvo, de uma boca apenas entreaberta.


"– Cadê meu rolo de axá? – o negrinho insiste, pedindo tabaco com sal, para mascar. "

Dos Santos tem certeza de que jamais viu aquele negrinho. A única coisa que sabe dele é que tem a pele tão preta e a fisionomia tão afróide, quanto as suas. E que usa um barrete africano de cor vermelha, talvez um eketé iorubano, talvez uma kijinga de Angola.


“Parece um Elegbara, um Exu, o negrinho” – pensa Dos Santos, apenas baseado nos relatos de quem já viu um Exu, como Gbetó Muçá, que inclusive tem um em casa. Porque ele, ainda bem, nunca viu nenhum. Mas o que estaria fazendo um Exu-Elegbara em plena floresta amazônica? Confraternizando com Anhangá, Apeautó e outras entidades perigosas?


"– Cadê meu fumo de rolo? . – pergunta de novo o negrinho, insistente na cobrança que faz a todos os que adentram seus domínios, mas sem demonstrar impaciência. Será Arôni, o duende iorubano das matas, da família de Oçãe, que só tem uma perna no corpo humano? Não! Arôni tem cabeça de cachorro.


"– Meu nome é Sácí Kpededè, que quer dizer, em fongbé, “muito bonito”... – diz o negrinho, todo rempli de soi mème. Aí, o general governador, contente em saber que ele e o personagem têm a mesma origem étnica, fica sabendo mais: que ele é o famoso Saci Pererê, meio africano e meio índio, nascido, segundo sua própria e discutível versão, de um babaloçãe jeje-iorubano que um dia, há muitos anos, entrou na mata para colher folhas e foi encantado e seduzido por uma bela índia dotada de poderes sobre-humanos.


"– Por isso eu sou preto, uso barrete vermelho e chamo o fumo de “axá” – pelo lado paterno. Por isso fumo cachimbo e sou filho da Mãe-do-Rio. "O Saci Pererê, então, se gaba de ter sido o primeiro afro-indígena. Mas foi banido do convívio dos humanos, conforme confidencia, por intriga de um grupo de antropólogos, sob o argumento de que o fumo que fuma não é nem um pouquinho inocente. É pango, diamba, fumo-de-angola, makanya, igbó, igi ogbó, moda, rama, tabanagira... Que dá, segundo ele, sensação boa, sim, fazendo esquecer muita tristeza.


"– Mas também dá preguiça, provoca torpor, leseira, leva à vagabundagem. E se fumado em demais, potencializa as más tendências do indivíduo. - Adverte Dos Santos.


"Mas apesar disso, o Saci Pererê (ou Sácí Kpededè ) foi, de fato, o primeiro afro-indígena. Por isso, Dos Santos pensa em fazer dele o símbolo de sua República, o que mais tarde se realiza".


(Da rapsódia "Oiobomé O' Mezamu", no prelo, Editora Agir, com lançamento previsto para outubro, 2009, mas, ainda não disponível no mercado).


Em entrevista ao Jornal "O Tempo" on line sobre seu livro “Oiobome O’Mezamu”, Nei Lopes explica que Oiobome é a junção dos nomes de duas cidades históricas africanas, Oio e Bome, e que a tradução de O’Mezamu é algo como “dos meus amores”. E declara o seguinte: “Fantasio sobre um país criado no Norte do Brasil por um negro fugido da escravidão. Esse país, na atualidade, seria o detentor do maior índice de desenvolvimento humano da América, já teria descoberto a cura para a Aids e seria governado por duas mulheres que se amam loucamente. É um país maravilhoso em que tudo deu certo”. Vamos esperar esta nova criação do mestre!

Fonte:

http://www.neilopes.blogger.com.br/
http://www.otempo.com.br/otempo

6 comentários:

Meias de Seda (Suzy) disse...

Muito interessante o texto do Nei.
Tenha um ótimo início de semana.
Beijos ;)

Guará Matos disse...

É a Cultura rica de uma nação que deveria preservar com mais força suas tradições.
Bjs.

Rita Cidreira disse...

Que história orripilante!
Queremos um pais assim, onde exista respeirto, educação, cultura, segurança e principalmente saúde. E que seja governado por mulheres...
Isso será que é utópico?
Linda esta postagem, beijos doces, minha querida Denise.

Denise Guerra disse...

Suzy, obrigada pela presença! o Nei é básico na cultura afro-brasileira! Bjs!

Denise Guerra disse...

Guará, nós estamos aqui pra dar um pouquinho da nossa contribuição e vamos fazer isso muito bem, Bjs!

Denise Guerra disse...

Querida Rita, já que não posso ainda eleger a Marina que é a minha candidata preferida no momento e nem vc em quem eu votaria com prazer então, ninguém mais me interessa! vamos levando nossa cultura aonde o vento permitir. Bjs!

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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.