♫AMIGOS DO AFRO CORPOREIDADE♫

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

♫Correlações Entre o Pé de Alface, duas Brincadeiras de Roda e Símbolos Míticos Afro-Brasileiros♫

*Por Denise Guerra*
*Foto 1
Os nativos do Rio de Janeiro já devem ter ouvido a famosa Cantiga de Roda “Plantei um Pé de Alface” cuja letra é assim: “Plantei um pede alface, a chuva quebrou um galho(bis); Rebola chuchu, rebola, rebola se não eu caio(bis).” Mas, tem outra cantiga de Alface talvez menos conhecida, presente no sudeste brasileiro que é esta: “Plantei um Pé de Alface no meu quintal, nasceu uma neguinha de avental; Rebola neguinha, rebola neguinha que eu quero ver; Balança esse braço, balança esse braço que tem cecê. Menina bonita, menina bonita que é você(bis).” Observando as diferentes dinâmicas destas brincadeiras, vemos que na primeira cantiga todas as crianças fazem os movimentos de mãos dadas na roda sem um solista. Já na segunda forma do Pé de Alface, há sempre uma criança solista no meio da roda que representará os personagens Pé de Alface e neguinha de avental a qual, de olhos vendados, apontará e escolherá a menina bonita da roda que a substituirá na repetição da brincadeira. O curioso deste último brinquedo cantado é que a criança que fica no meio da roda passará por várias experiências, desde ser a menina bonita escolhida para entrar na roda, a hortaliça Alface, até a neguinha de avental. No entanto, na primeira cantiga da Alface todos devem realizar as atividades igualmente, “Rebolar” como o chuchu e cair no chão conforme diz a letra.

*Foto 2
Eis que encontrei em Lopes (2004) a seguinte informação sobre a hortaliça em questão: “Alface (Lactuca Sativa) Erva da família das compostas. Na tradição ritual afro-cubana, sendo folha que refresca Oxum e Iemanjá. É usada para tapar as sopeiras que guardam os Otás* destas iabás*.” As citadas orixás, guardadas as devidas variações encontradas nos países que mantém seu culto, e na própria mítica iorubana, são referenciadas como orixás das águas doces(Oxum) e salgadas(Iemanjá). À epifania de Iemanjá é dada como mãe de quase todos os orixás, deusa da beleza e do amor. Coincidentemente para Oxum os atributos são também como deusa da beleza e do amor, além de ser deusa da riqueza. Voltando às cantigas de roda do início deste tema podemos pensar o seguinte: As duas cantigas sobre o Pé de Alface fazem referência às atividades rurais de plantio; Talvez as crianças estivessem relacionando no brincar o labor de seus pais, e a água, neste caso, símbolo principal das orixás citadas é imprescindível. As danças realizadas nos dois brinquedos cantados da Alface são o “Rebolar” faceiro e talvez sedutor dos ritmos regados às síncopes no modo africano de musicar e dançar; ato coreográfico este, por vezes, de cunho pejorativo atribuído ao negro por causa dos seus gingados corporais. A segunda cantiga da Alface é muito significativa com relação à vivência do africano no Brasil, pois, o preconceito comparece com todos os desvalores possíveis: planta-se o Pé de Alface e nasce uma neguinha de avental (seria uma antecipação da condição servil destinada ao negro?), é a esta personagem que se pede para rebolar (estigmas de sexualização do corpo negro?), e ainda é ela que também tem cecê (preconceito que aponta o negro sujo?). Por fim a menina bonita que é alvo de escolha é aquela que está fora da roda, ou seja, não é a neguinha que está no meio da roda. Na primeira cantiga as crianças tratam-se de chuchu, um certo elogio que se faz à “beleza” de outra pessoa.
*Foto 3
Concluindo então: A Alface que deve refrescar as orixás citadas e guardar seus Axés plantados nos otás, foi cantada nas brincadeiras de roda mostrando diversos elementos que se referem ao tratamento desigual dados pela nossa sociedade aos nossos irmãos negros. Faz-se provavelmente alusão a um espaço rural, e um período histórico talvez com uma divisão de classes sociais entre escravos e não escravos, mas, também com pontos míticos amarrados no simbolismo da roda. Contudo, um rasgo de resistência se acende no lúdico infantil, pois, todos da roda devem experimentar o lugar do outro e assim compartilhar sentimentos, desejos e a cultura corporal brasileira. A menina bonita e o tratamento de chuchu nas letras das cantigas de roda apresentadas aqui podem servir como um mote à beleza. O simbolismo desta hortaliça em flor brotando e crescendo como a criança ou como o Axé das Orixás, tinge de Verde a Esperança de dias melhores, pois, a criança só sabe do preconceito quando alguém lhe apresenta!


Vocabulário Afro:
*Axé=Termo de origem ioruba que, em sua acepção filosófica, significa, a força que permite a realização da vida; que assegura a existência dinâmica; que possibilita os acontecimentos e as transformações
*Otá=pedra onde se assenta a força mística (Axé) do Ori.*
*Ori=Na tradição dos orixás, denominação da cabeça humana como sede do conhecimento e do espírito.
*Iabá=Na tradição jeje-nagô brasileira, nome genérico dos orixás femininos.

Referências:
*LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
*Revista Afro-àiyé: Cultura – Sociologia – Religião. São Paulo: Mythos Editora Ltda, 2006.

Foto 1:http://www.terraagrosul.com.br
Foto 2:http://www.revistaquilombo.com.br
Foto 3: http://www.alec.ac.gov.br/alec/edvaldo
magalhães/images/stories/fotosdodia/ciranda

Um comentário:

Juliana disse...

Parabéns pelo trabalho. O conhecimento veiculado, além de muito interessante, é belo e contribui para a nossa formação.
Juliana Gehlen

♫ESCOLA DE MÚSICA PENTAGRAMA♫ Direção Mapinha * Músico-Professor♫

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*"Capoeira é de Todos e de Deus. Mundo e gentes têm mandinga, Corpo tem Poesia, Capoeira tem Axé"*

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*Frase do Livro "Feijoada no Paraíso" Besouro*
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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.