Lamentando pela ausência de Graça Marshal que cancelou sua participação por problemas de saúde, o tema desta última conferência era “A África na Construção do Mundo: O Futuro, e as discussões sobre o futuro de África foram latentes, e os motes principais das falas da Zambiana Dambisa Moyo e dos brasileiros Gilberto Gil e Alberto da Costa e Silva foram: Lucidez, veemência, orgulho do pertencimento africano e cobrança sobre as alteridades em relação à África.
Dambisa Moyo discorreu com intenso conhecimento de causa sobre os fatos históricos de diversos períodos e ressaltou fortemente a contemporaneidade africana. A palestrante cobrou coerência e respeito nos olhares para África, e em especial que permitam que a África seja ela por si mesma, dando exemplos dos estereótipos que subjugam a África e os africanos impedindo-os de progredirem como qualquer continente.
Gilberto Gil lembrou um pouco das dívidas da humanidade em relação à África, afirmando também nossas dependências desta matriz genética tida como o berço da humanidade. Nosso ex-ministro da cultura expôs o quadro vergonhoso imposto pelas ajudas humanitárias em áfrica que geralmente chegam com a contra partida dos interesses de explorações inescrupulosas ao continente africano e sua gente.
Segundo a economista zambiana as estatísticas em África hoje são assustadoras: A qualidade de vida regride a passos largos, a área da educação não tem avançado, a expectativa de vida na África caiu de uma média de 52 anos para 47 anos de 2004 para cá, para os neonatos e suas mães os níveis de mortalidade é um dos maiores do mundo, os serviços de infra-estrutura e a saúde encontram-se mais adoentados do que sempre estiveram, a segurança é algo ameaçador.
*Foto2:Paulo Flores e Angelique Kidjo
O passado e o presente da África foram decantados no evento pelos palestrantes, mas, desenharam uma perspectiva de futuro catastrófica se não houver mudanças drásticas, especialmente no modo como o mundo vê e age com a África além do tratamento que dá ao Negro. O conteúdo da oratória pro - África foi mais intenso do que as palavras podem transparecer, todavia, um tema levantado pela platéia e por Marisa Monte na última 6ª feira em muito resume o que falta na África, no Brasil e no mundo como um todo: “Cadê a ÉTICA?!”
Ressalto a participação do mediador Sr Alberto da Costa e Silva, poeta, historiador, africanólogo, observando o quão primoroso é com as palavras e com a síntese das causas discursadas. Intervindo na questão sobre a ética na mídia solicitada pela platéia, o Sr Costa e Silva citou seu grande amigo Guimarães Rosa que dizia que não lia jornais, porque eles só traziam notícias trágicas; e o Sr Costa e Silva prefere concordar com Guimarães Rosa ao invés de cansar suas pestanas com leituras que deprimem e não acrescentam nada.
O músico Gilberto Gil e a economista Dambisa Moyo concordam que quando se trata de África a miséria é mais sensacionalista do que deveria e a ética passa longe das intervenções estrangeiras. No final de sua fala a Zambiana concluiu: “Não digo que não façam nada pela África, mas, que façam melhor!” e o ex-ministro brasileiro complementou: “Precisamos da África por ser esta nossa matriz étnica natural. A humanidade é a natureza africana, e a natureza africana é a humanidade, portanto, cuidemos da África para o nosso bem!”
*Foto3: Mart'nália e o angolano Paulo Flores*
Passando-se aos shows que neste dia teve como tema a “Celebração do Samba”, nossa querida Mart’nália teve a honra de conduzir um dos mais brilhantes e memoráveis encontros já vistos na diáspora africana. Uma preciosidade de gêneros musicais de matriz africana, através das vozes, instrumentos, corpos, poesias, folclore, mitos e divindades afros além de muita cumplicidade.
Mart’nália, como boa prata da Escola de Samba Vila Isabel, abriu o show com a música “Filosofia” do ilustre símbolo da azul e branco Noel Rosa, que por ser tão significativa em relação à marginalização do samba e seus criadores vale apena relembrar:
Mart’nália, como boa prata da Escola de Samba Vila Isabel, abriu o show com a música “Filosofia” do ilustre símbolo da azul e branco Noel Rosa, que por ser tão significativa em relação à marginalização do samba e seus criadores vale apena relembrar:
*FILOSOFIA (Noel Rosa)*
O mundo me condena, e ninguém tem pena
O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome
Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indife....rente assim
A viver indife....rente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Pra ninguém zombar de mim
Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo
Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente sendo escrava
Dessa gente que cultiva hipocrisia
*F
Em seguida foi a vez da música folclórica angolana “Humbiumbi” através da leveza da voz de Paulo Flores conclamar a todos para um vôo conjunto. Mais uma interpretação de Paulo Flores com a doce música de Dorival caymmi “É doce morrer no mar” falava deste atlântico que nos separa, Brasil e África, e da mãe de todos os orixás Yemanjá.
A divindade Xangô Deus do fogo e do trovão foi cantado por Margarete Menezes e Angelique Kidjo, contudo, outras evocações ao sagrado se fizeram entoar como o “Milagres do Povo” de Caetano Veloso. Verdadeiras odes ao negro, à negritude, seus heróis, suas pérolas negras, os países da diáspora e a África.
A divindade Xangô Deus do fogo e do trovão foi cantado por Margarete Menezes e Angelique Kidjo, contudo, outras evocações ao sagrado se fizeram entoar como o “Milagres do Povo” de Caetano Veloso. Verdadeiras odes ao negro, à negritude, seus heróis, suas pérolas negras, os países da diáspora e a África.
Cada uma das estrelas deixaram seu brilho peculiar num repertório cuidadosamente selecionado, e foi assim que os brasileiros Luiz Melodia, Marina Lima, Rodrigo Maranhão, Maria Gadu fizeram verdadeiros duetos com a cabo-verdiana Mayra Andrade e a cubana Omara Portuondo além dos artistas africanos já citados. Mais um presente dos deuses foi ver nossa grande dama do samba Dona Ivone Lara, apesar da frágil saúde, cantando lindamente e ainda estimulando o público puxando a capela o seu “Tiê” que teve como resposta do público uma sintonia que só os grandes são capazes.
*Foto6:Todos os Artistas cantaram juntos ao final*
As merecidas homenagens e interações musicais passaram a idéia da riqueza multicultural espalhada pela diáspora africana. Retomo um detalhe importante que faltou no evento: mesmo neste último dia com a “Celebração do Samba” e a “Kizomba a festa da raça” interpretada pela sambista Mart’nália, o povo comum do samba não foi visto no Back2Black. Valeu Zumbi?!
*Foto7 e 8: Eu com o amigo Carlos Emídio,profº de Yoga, e na foto 8 com o grande percusssionista Robertinho Silva*
*Foto 8 e 9:Com os amigos Marcia, Renato e Silvia*
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