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domingo, 18 de outubro de 2009

*DIÁLOGO ENTRE AS LETRAS MOÇAMBICANAS DE MIA COUTO E AS TELAS LUSO-ANGOLANAS DO PINTOR NEVES E SOUSA*

*Por Denise Guerra
O autor moçambicano em questão Chama-se Antonio Emílio Leite Couto ou simplesmente Mia Couto; nasceu em 5 de julho de 1955, na Beira, a segunda cidade mais populosa de Moçambique, e conformes seus relatos conviveu com pretos e mestiços dado a ocupação caótica de sua cidade natal, proporcionando-lhe uma profunda osmose de grande importância na sua formação, bem como, sua condição assumidamente mestiça(Couto apud Secco in Salgado e Sepúlveda, 2000). Mia Couto possui uma formação bastante eclética, pois, além de ser um grande escritor com reconhecimento internacional, é também jornalista, biólogo e outrora atravessou os caminhos da medicina. Fazem parte da obra de Mia Couto dezesseis títulos entre poesias, contos, romances, crônicas, novela, história infantil e outros como suas palestras, verdadeiros bálsamos aos ouvidos ouvintes. Sua necessidade de brincar com as palavras caracterizam o seu estilo mesclado de “Brincriações e Logotetismo”; os sonhos, o encantamento, a magia, a oralidade, as tradições e a contemporaneidade africanas, também acompanham suas criações (op.cit).

Não menos importante, Albano Neves e Sousa, carinhosamente tratado pela famosa alcunha de “o pintor angolano”, nasceu em Portugal (1921), mas, viveu a maior parte de sua vida em Angola(até 1995); suas famosas telas com motivos africanos não lhe bastaram para falar da sua terra do coração; fazem parte do seu acervo além de quadros, gravuras, e desenhos, poemas e outros textos (in: bissapa.blogspot).

O texto de Mia Couto que acompanham as telas do Pintor Neves e Souza intitulado “Os Sete Sapatos Sujos” é um excerto de sua palestra proferida no Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique, por ocasião da abertura do ano letivo de 2005 daquela instituição de ensino, e foi publicado no “Courrier Internacional” em 02/04/2005. Diz o fragmento do texto: “Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei “Sete Sapatos Sujos” que necessitamos de deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico!”

As gravuras de Neves e Souza que expressam o texto apresentam diversas formas de danças com bailarinos negros em vestimentas esvoaçantes. A formatação das gravuras com o texto é de autor desconhecido, entretanto, parece tentar transmitir as vivências do corpo com a voz africana. Confira!
Primeiro Sapato: A idéia de que os culpados são sempre os outros.

Segundo Sapato: A idéia de que o sucesso não nasce do trabalho.

Terceiro Sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo.

Quarto Sapato: A idéia de que mudar as palavras muda a realidade.

Quinto Sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências.

Sexto Sapato: “a passividade perante a injustiça”.
Sétimo Sapato: A idéia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros.”

Observa-se na interação do fragmento “Os Sete Sapatos Sujos” de Mia Couto, com as telas do pintor angolano Albano Neves e Sousa, a possibilidade do diálogo entre corpo-arte-voz mostrando como o “deslimite” pode insinuar o “entrelugar” do humano! O uso da palavra e do gesto é uma idéia comum na presença africana; com eles o homem deseja se apropriar da energia vital que rege o universo.

Mia Couto evoca as necessidades humanas em cada momento que é solicitado e aqui, perante uma plenária culta, tratou das mazelas que afligem os homens esperando que mais que uma geração tecnicamente capaz surja uma geração capaz de questionar a técnica, e de mudar o curso da história. (op.cit.)

Neves e Souza para proveito das palavras africanas fez um diálogo de corpos que em silêncios e cores dizem tudo da complexidade de ser humano. Que ecoem novas e ricas experiências: ouvir em outra sonoridade, Falar em outra articulação, Sentir com os olhos da alma. Encerro este diálogo com algumas letras de Neves e Sousa sobre o ser angolano reforçando o humano que há em todos nós:

ANGOLANO"(Neves e Sousa)


Ser angolano é meu fado, é meu castigo;
Branco eu sou e pois já não consigo mudar jamais de cor ou condição... Mas, será que tem cor o coração?


Ser africano não é questão de cor, é sentimento, vocação, talvez amor. Não é questão nem mesmo de bandeiras de língua, de costumes ou maneiras...


A questão é de dentro, é sentimento e nas parecenças de outras terras longe das disputas e das guerras encontro na distância esquecimento!

Referências:
COUTO
, Mia.
http://www.macua.org/miacouto/MiaCouto%20ISCTEM2005.htm Acesso em 23/08/2007
http://bissapa.blogspot.com/2006/01/albano-neves-e-souza.html Acesso em 23/08/2007

SECCO, Carmem Lúcia tindó. Mia Couto: E a “Incurável Doença de Sonhar”. In: SALGADO E SEPÚLVEDA, Teresa e Maria do carmo. África e Brasil: Letras em laços. Rio de Janeiro: Editora Atlântica, 2000.

8 comentários:

jader resende disse...

Oi Denise,
É sempre bom, útil e necessário, falar de coisas boas, faz bem a alma e alimenta o espirito, meus parabéns.
Jader Resende.

Denise Guerra disse...

Olá Jader, obrigada pela visita! É verdade, são as coisas boas que nos dão forças para enfrentarmos as dificuldades. Obrigada por ter me lembrado deste pintor e na sequência tive que associá-lo a outro grande artista das letras!
Um forte Abraço!

Guará Matos disse...

E eu vou aprendendo com essa biatiful womam, e seus posts educativos culturais e interativoos.
Bjs.

Denise Guerra disse...

Olá Guará, obrigada pela visita! Você é mesmo um Gentleman! Bjs!

jader resende disse...

É um enorme prazer em reler o texto.
Espero que tenham gostado da homenagem ao professor e também da besteira da Maitê.

Denise Guerra disse...

Oi Jader, obrigada mais uma vez pela presença. Sua homenagem ao professor foi muito bonita e inspiradora, eu nem me lembrava deste trabalho que estava guardado e quando vi seu post é que percebi que era importante me juntar a vc para mostrar a grandeza de Neves e Souza. Grande Abraço!

Guará matos disse...

Você está sumida. Sem a sua presença a blogosfera é nula!
Volta!
Bjs.

Denise Guerra disse...

Obrigada pelo carinho Guará, tô com muito trabalho e prazos apertados, mas, não sumi não, tô na área e se derrubar é pênalti falou! Bjs!

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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.