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domingo, 20 de dezembro de 2009

*O MITO DE OXALUFÃ - Reflexões*

*Por Denise Guerra*

O MITO DE OXALUFÃ OFERECE-NOS ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE NOSSA PASSAGEM NA TERRA. APRESENTO-LHES O MITO E UMA DISCUSSÃO TEÓRICA PARA QUE TIREM SUAS PRÓPRIAS CONCLUSÕES.


O MITO:

Oxalufã, rei de Ifan, decidira visitar Xangô, o rei de Oyó, seu filho. Antes de partir, Oxalufã consultou um babalaô para saber se sua viagem se realizaria em boas condições. O babalaô respondeu que ele seria vítima de um desastre, não devendo, portanto, realizar a viagem. Oxalufã, porém, tinha um caráter obstinado e persistiu em seu projeto, perguntando que sacrifícios poderia fazer para melhorar a sua sorte. O babalaô lhe confirmou que a viagem seria muito penosa, que teria de sofrer numerosos reveses e que, se não quisesse perder a vida, não deveria jamais recusar os serviços que, por acaso, lhe fossem pedidos, nem reclamar das conseqüências que disso resultassem. Deveria, também, levar três roupas brancas para trocar e sabão. Oxalufã se pôs a caminho e, como fosse velho, ia lentamente, apoiado em seu cajado de estanho. Encontrou, logo depois, Èsù Elèpo Pupa (‘Exu-Dono-do-Azeite-de-Dendê’), sentado à beira da estrada com um barril de Azeite-de-Dendê ao seu lado. Após uma troca de saudações, Exu pediu a Oxalufã que o ajudasse a colocar o barril sobre a sua cabeça. Oxalufã concordou e Exu aproveitou para, durante a operação, derramar, maliciosamente, o conteúdo do barril sobre Oxalufã, pondo-se a zombar dele. Este não reclamou, seguindo as recomendações do babalaô; lavou-se no rio próximo, pôs uma roupa nova e deixou a velha como oferenda. Continuou a andar com esforço, e foi vítima, ainda por duas vezes, de tristes aventuras com Èşù-Eléèdu (‘Exu-Dono-do-Cavão’) e Èşù Aláàdì (‘Exu-Dono-do-Óleo-da-Amêndoa-de-Palma). Oxalufã, sem perder a paciência, lavou-se e trocou de roupa após cada um das experiências.Chegou, finalmente, à fronteira do reino de Oyó e lá encontrou um cavalo que havia fugido, pertencente a Xangô. No momento em que Oxalufã quis amassar o animal, dando-lhe espigas de milho, com a intenção de levá-lo ao seu dono, os servidores de Xangô, que estavam à procura do animal, chegaram correndo. Pensando que o homem idoso fosse um ladrão, caíram sobre ele com golpes de cacete e jogaram-no na prisão. Sete anos de infelicidade se abateram sobre o reino de Xangô. A seca comprometia a colheita, as epidemias acabavam com os rebanhos, as mulheres ficavam estéreis. Xangô, tendo consultado um babalaô, soube que toda essa desgraça provinha da injusta prisão de um velho homem. Depois de seguidas buscas e muitas perguntas, Oxalufã foi levado à sua presença e ele reconheceu seu pai Oxalá. Desesperado pelo que havia acontecido, Xangô pediu-lhe perdão e deu ordem aos seus súditos para que fossem, todos vestidos de branco e guardando silêncio em sinal de respeito, buscar água três vezes seguidas a fim de lavar Oxalufã. Em seguida, este voltou a Ifan, passando por Ejigbô para visitar seu filho Oxaguiã, que, feliz por rever seu pai, organizou grandes festas com distribuição de comidas a todos os assistentes.


SOBRE O MITO:

Ferreira (1999) apresenta a seguinte definição para o mito numa perspectiva antropológica: “Narrativa de significação simbólica, transmitida de geração em geração e considerada verdadeira ou autêntica dentro de um grupo, tendo geralmente a forma de um relato sobre a origem de determinado fenômeno, instituição, etc., e pelo qual se formula uma explicação da ordem natural e social e de aspectos da condição humana”. O mito de Oxalufã apresenta entre outros simbolismos, uma possível origem e explicação dos elementos interditos comuns aos filhos de Oxalá (carvão, dendê, cola).


Segundo Cascudo (1988) observa-se as seguintes classificações para os mitos: mitos “Cosmogônicos” relacionados à criação do universo e do homem; mitos “Heróicos” referentes a semideuses ou super-homens; e por fim os mitos “Divinos” que falam sobre os deuses. Trata-se aqui de um mito sobre Oxalufã, uma entidade divina ou um dos fragmentos do Deus maior, portanto um mito sobre o Divino.


O mito de Oxalufã se inicia com a idéia de um modelo de disciplina e obediência quando oxalufã não se permite viajar para ver seu filho sem consultar o oráculo primeiro; e ainda que ofereça teimosia insistindo em viajar contrariando os presságios do oráculo, ele aceita e segue os conselhos do adivinho. Oxalufã parece ciente de que terá dificuldades a enfrentar, mas, investido de determinação e coragem prefere pagar o preço dos percalços por causa de seus objetivos. As figuras míticas sempre encontram adversidades em seus caminhos e o que parece torná-las tão representativas é talvez a capacidade de superação destas adversidades; como disse Jung apud Silveira (1981) “O mito encarna o ideal de todo ser humano: a conquista”.


Oxalufã encontrou no caminho para Oió as provações previstas no oráculo, e tendo resistido a todas elas em calma, silêncio e humildade chegou ao final de longo tempo ao seu objetivo maior: ver seu filho. O mito de Oxalufã propõe a vitória para quem suportar as dificuldades com parcimônia e persistência, de certa forma é um MODELO DE CONDUTA a ser seguido; a postura de subserviência em relação as palavras do oráculo é garantia de vitória àquele que assim o fizer. Da mesma forma, quando Xangô descobre o motivo de tamanha seca e esterilidade das mulheres de sua cidade Oió, cuida de retratar-se com o divino prestando-lhe homenagens e piedades. Assim se têm processado as respostas das sociedades em relação as suas crenças míticas; seguir os exemplos dos mitos da criação, de heróis e do divino seria então, repetir o ciclo de acontecimentos pertinentes a vida o qual não se pode quebrar sob pena de padecer as injurias do sagrado posto que tudo é determinação deste. Para o ser humano imperfeito e passível de erros ainda há a possibilidade de reparação como houve para Xangô e sua cidade Oió; tão logo identificado o erro, houve os momentos de reverenciar o divino que fora blasfemado. Subentende-se que evitar os seus interditos e valorizar os seus gostos seja uma forma de agradar as divindades principalmente quando o sujeito em questão desrespeitou os mandamentos míticos; eis ai o ideário complementar que faltava para a confirmação do mito como REGULADOR SOCIAL.


Num breve paralelo com os costumes ocidentais, acredita-se em determinados deuses e estes são seguidos como modelos de condutas; os exemplos identificados pelo grupo social como sendo a ira deste Deus para com os que erram o caminho do sagrado, servem de regulador social posto que quem teme não se aventura ao erro, e quem já padeceu prefere se redimir. Parece que a convivência harmônica com o sagrado é mais confortável e inebriante.


QUE A PAZ DE OXALÁ RENOVE NOSSAS ESPERANÇAS DE QUE, DEPOIS DE ERROS E ACERTOS, TRISTEZAS E ALEGRIAS, DERROTAS E VITÓRIAS, CHEGAREMOS AO NOSSO OBJETIVO MAIS NOBRE: AOS PÉS DE ZAMBI MAIOR(DEUS)! ÊPA BABÁ OXALÁ!


BIBLIOGRAFIA
CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 6a ed. São Paulo: Editora da USP, 1988.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Novo Aurélio século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

PRANDI, R. Mitologia dos Orixás. São Paulo: Companhia das Letras.

SILVEIRA, Nise da. Jung vida e obra/Nise da Silveira. 7a ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
*Figura de Oxalufã: http://images.google.com.br

4 comentários:

Guará Matos disse...

Que bela narrativa!
Fiquei desbundado com o que li. É a p´ropria vida, com seus percalços e destinos.
Beijos.

Denise Guerra disse...

Oi Guará, obrigada por deixar sua expressiva opinião. Vc sempre traduz tudo muito bem. Bjs!

Nana disse...

Oxalá é de fato uma figura mítica cujo símbolo maior é a paz. Os percalços enfrentados pelo percurso são exatos obstáculos que enfrentamos em nossa vida, parodiando a musica “levanta sacode a poeira e da à volta por cima”, segue, a sabedoria do ancião no caso “o mito”, nos ensina quando temos um objetivo, devemos ir, sem perder nossa paz interior, assim nos manteremos em equilíbrio. Outro episódio no mito, é exatamente quando se enclausura Oxalá cujo signo “PAZ”, sem esse elemento básico para a harmonia numa sociedade tudo se autodestrói as relações, colheitas, alegra interior e etc. Na realidade não é uma maldição, mas assim como a água esta para a vida, a paz esta para o espírito... Paz e Asé a todos.. Sérgio Cumino

Denise Guerra disse...

Oi Sérgio, obrigada pelo seu precioso e esclarecedor comentário! Seja sempre bem-vindo! Paz e Asè!

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*Frase do Livro "Feijoada no Paraíso" Besouro*
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♫SUGESTÕES BIBLIOGRÁFICAS♫

  • *CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 6ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1988.
  • *COSTA, Clarice Moura. O Despertar para o outro: Musicoterapia. São Paulo: Summus Editorial, 1989.
  • * FREGTMAN, Carlos Daniel. Corpo, Música e Terapia. São Paulo: Editora Cultrix Ltda,1989.
  • *EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003.
  • * FREYRE, Gilberto. Casa grande e Senzala. 50ª edição. São Paulo: Global Editora, 2005.
  • *HOBSBAWN, Eric J. História Social do Jazz. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.
  • *LOPES, Nei. Bantos, Malês e Identidade Negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006.
  • *_________. Dicionário Escolar Afro-Brasileiro. São Paulo: Selo Negro, 2006.
  • *_________. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
  • *_________. O Negro no Rio de Janeiro e sua Tradição Musical: Partido Alto, Calango, Chula e outras Cantorias. Rio de Janeiro: Pallas, 1992.
  • PEREIRA, José Maria Nunes. África um Novo Olhar. Rio de Janeiro: CEAP, 2006.
  • *RAMOS, Arthur. O Folclore Negro do Brasil. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • *ROCHA, Rosa M. de Carvalho. Almanaque Pedagógico Afro-Brasileiro: Uma proposta de intervenção pedagógica na superação do racismo no cotidiano escolar. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2006.
  • *___________. Educação das Relações Étnico-Raciais: Pensando referenciais para a organização da prática pedagógica. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2007.
  • *ROSA, Sônia. CAPOEIRA(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *__________. JONGO(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *___________. MARACATU(série lembranças africanas). Rio de Janeiro: Pallas, 2004.
  • *SANTOS, Inaicyra Falcão. Corpo e Ancestralidade: Uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. São Paulo: Terceira Margem, 2006.
  • *SODRÉ, Muniz. Samba o Dono do Corpo. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
  • TINHORÃO, José Ramos. Música Popular Brasileira de Índios, Negros e Mestiços.RJ: Vozes, 1975.
  • _________ Os sons dos negros no Brasil. São Paulo: Art Editora, 1988.